A árvore da minha vida

Cláudia Simone[1]

Árvores sempre fizeram parte de minha vida. Brinquei entre bananeiras, jaqueiras, goiabeiras, mangueiras, amoras, ameixas. Conheci seus frutos, suas folhas, seu tempo de florescer, chegar e passar. Aprendi com meu pai e minha mãe quando molhar, em que terra plantar e quando cortar.

Até que um dia fui inquirida sobre a árvore da minha vida. Uma árvore que todo mundo tem, ou pelo menos deveria ter, uma árvore da qual as pessoas são o fruto, que conta a história de nossa família, de nossa origem, de nossos ancestrais, que revela o nosso quintal: a árvore genealógica.

Fiquei um tempo pensando, não podia responder de pronto, era uma questão de pesquisar, uma questão de conhecer. Não respondi durante muito tempo. Mas a pergunta ficou.

Quando li a proposta do Laboratório Madalena, o que mais me tocou foi a possibilidade de um espaço só para mulheres, assim como os homens têm seu espaço sagrado no futebol de domingo. Do que falaríamos? O que trocaríamos? Quais são os nossos assuntos? Do que a mulher fala? Do que eu falo?

Era como se estivesse me descobrindo mulher no momento em que me indagava. Lembrei-me de minhas amigas adolescentes, das conversas sobre menstruação, sobre o primeiro beijo, de onde vêm os bebês, o medo do parto, o prazer de amamentar. Mas isso era papo de menina na escola, em que todas as perguntas podiam ser feitas e as revelações eram diárias, confiávamos umas nas outras, nos víamos como aliadas, era bom ser menina. Mas, com os passar do tempo, esse espaço foi diminuindo, minguando, sumindo. E aquelas fêmeas que eram minhas aliadas passaram a representar ameaça, despertavam desconfiança.

Por quê? Os homens são solidários, mulheres não. Em mulher não se pode confiar, pois, se você vira as costas, ela toma seu marido. O mercado tá assim de carne nova e homem gosta de variar, mulher sempre trai a outra. Assim, de invasão em invasão, meu cérebro começou a ver as mulheres como perigosas, ardilosas e pouco solidárias. Ficou para trás o espaço das fêmeas, o lugar das perguntas e das revelações, do fortalecimento de minha identidade feminina.

Até que, no interior do Ceará, novamente esse espaço surgiu no Laboratório Madalena. Éramos 25 mulheres trocando ideias e falando de tudo um pouco, ávidas pelo reencontro das aliadas perdidas na infância. Nesse espaço, surgiu novamente a questão sobre a árvore da minha vida: como palavra, imagem e som. A proposta era fazer o percurso das ancestrais: começando de minha mãe, teria que voltar para minha avó, para minha bisavó e seguir retrocedendo para encontrar minha origem. Encontrei tanta dificuldade, parecia que um pedaço de mim havia sido arrancado, estanquei no espaço enquanto meu coração recuava no tempo às cegas. No quintal da minha vida, a árvore genealógica havia sido abatida, e não se falava disso. Faltavam galhos que não sabíamos onde foram parar: na fogueira, no alicerce de uma casa, no banco de um jardim, no carrinho de rolimã de uma criança? O fato é que, da árvore, restava muito pouco que bravamente continuava a brotar, mas também não se falava disso. Agora ali estava eu, sendo provocada a falar da árvore da minha vida, das minhas ancestrais.

Sou filha de mãe preta, que não conheceu sua própria mãe, muito menos sua avó. Do pai, sabia pouco, só que ele era mau. Tinha uma irmã que só viu no berço e sabia de ventos soprados que ela tivera duas filhas. Conheci uma tia-avó, primas- tias, primos-tios, e assim é. Do meu pai, nem sei a cor, só sei que outro me criou. Pode uma mesma árvore dar maçã, laranja, pera e outros frutos? Assim parecia a minha árvore genealógica, impossível de se compor.

Olhava ao meu redor e havia poucas mulheres negras que, como eu, também pareciam estancar em alguns momentos. Enquanto isso, várias mulheres brancas, que me pareciam de classe média, avançavam a passos largos em direção a suas avós, bisávos, seus tataravôs. Quanto mais recuavam, mas tranquilas ficavam, quase não se mexiam, pareciam rainhas e princesas. As poucas negras que estavam junto comigo apanhavam, trabalhavam duro, algumas até foram chicoteadas. Era um contraste tão grande entre mulheres brancas e mulheres negras que chocava.

Encontrei uma resposta para dar sobre a tal árvore. Negra que sou, vim da África, pronto. Meus ancestrais foram escravizados, boa parte da minha família foi separada, transportada, violada, castigada, condenada. Nesse momento, me questionei: antes de serem escravizados, como viviam os negros? Será que também teriam sido reis e rainhas? Por que sempre paramos na escravidão, quando voltamos no tempo, e nunca chegamos à realeza? Teremos lutadores, guerreiros, princesas e príncipes ou os negros somente foram escravos?

Saindo da imaginada África antiga, que só vi nos livros e filmes, pensei na atualidade. E minha suposta e recém-plantada árvore, teria quais pessoas? Cozinheiras, lavadeiras, pedreiros, presos, prostitutas, mães de santo…

Mais um tempo passei pensando. Não conseguia falar dessa árvore imaginada. Seus frutos, eu não conhecia de perto, sequer sabia como plantar. Tinha uma identificação que me tocava. Mas não tinha nomes, histórias ao lado do fogão e beijo doce na hora de dormir.

Pensando de fato na minha árvore genealógica, o que posso dizer? Não sei quem é meu pai, e minha mãe mal sabe quem é o pai dela. Assim não dá para construir uma árvore, nem quero mentir para ter uma. Sou negra, sim, e adoraria saber de fato que vim da África, mas a África é grande, tem muitos países, lugares, cores, tambores e cheiros. Que África? Se soubesse, teria orgulho de minha origem.

Sou pobre e, como eu, muitas crianças nessas condições perdem seus pais, moram na rua e no dia a dia encontram lenhadores que desmatam florestas genealógicas. Com isso tudo, me identifico. Saber ou não saber sobre suas origens é de fato uma questão de classe? De etnia?

Resolvi, então, responder a tão importante pergunta: “Como é sua árvore da vida?” Na verdade, minha árvore da vida começa agora, a partir do toco da árvore que restou da minha família. Sem negar o passado, quero olhar o que tenho no presente e regar a base do que me sobrou para que as gerações futuras de minha família possam sentar à sombra da árvore genealógica, com nomes, cores, histórias e uma doce lembrança do beijo de boa noite.


[1]               Claudia Simone dos Santos Oliveira: Mestranda em Relações – Étnico Raciais (CEFET/RJ); graduada em Pedagogia pela faculdade de Ciências e Letras (FERP), Psicopedagoga pós-graduada pela Faculdade Integrada Simonsen, Kuringa com atuação internacional, criadora do grupo Pirei na Cenna, pesquisadora do Teatro do Oprimido antimanicomial, fomentadora e difusora de Pas à Passo Théâtre de L’Opprimé, em Ameins França, referente metodológica da Rede Internacional Ma(g)dalena. Atriz em ME Editar nas águas que me atravessam, investiga os efeitos subjetivos do racismo sobre a saúde mental da mulher negra . É colaboradora do Centro de Teatro do Oprimido/RJ Brasil

Traducir»